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“O Aikido começa em você. Trabalhe em si mesmo e na sua tarefa. Todos temos um espírito que pode ser aprimorado, um corpo que pode ser treinado de alguma forma, um caminho apropriado para seguir. Desenvolva a paz na sua vida e aplique o Aikido em tudo o que você encontrar... [pois] a verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo, aqui e agora”  86:34.

Morihei Ueshiba

 

 

O Aikido é a arte marcial que mais preserva intacta a tradição samurai do caminho do guerreiro (Bushido). De linhagem samurai, Morihei Ueshiba (1.883-1.969) aos sete anos foi iniciado nos ensinamentos da seita Shingon do budismo japonês. Nessa seita, Ueshiba teve seu primeiro contato com o princípio Kototama, a eficácia mágica do som, a qual os hindus dão o nome de Mantra (Cf. no Volume 3). Dotado de facilidades extra-sensoriais, Ueshiba ficou conhecido como “soldado-deus” por seus feitos extraordinários em batalha, na guerra entre Rússia e Japão que eclodiu em 1.904.

Onze anos depois conheceu Sokaku Takeda, mestre do estilo Daito do jiu-jitsu, com o qual compreendeu os princípios do Bushido. Quatro anos depois, em 1.919, quando conheceu Wanisaburo Deguchi (1.871-1.947), vultuoso líder espiritual fundador de uma seita xintoísta denominada O-moto Kyo (grande origem), veio a estudar os ensinamentos xintoístas, entre os quais o Kototama, em profundidade. Foi desse aprofundamento espiritual que veio a nascer o Aikido.

“É o caminho para a sabedoria infinita e para a compreensão espiritual”  39:29

Morihei Ueshiba

 

O Aikido prioriza o cultivo das “quatro gratidões”: gratidão para com o Universo pelo dom da vida e de se estar vivo, gratidão para com os ancestrais e predecessores, pela criação da cultura humana e de nossos corpos, gratidão para com o próximo cultivando o princípio de não-violência, e gratidão pelos vegetais e animais, por cada porção de alimento que ingerimos. O sentimento de gratidão traz consigo o antídoto do ressentimento pelo Universo e pelos outros, eliminando as nossas reclamações ante as dificuldades da vida, e traz também o sentimento de respeito: pela Vida Una, pelo Universo e pelos outros.

Busca também o despertar das “quatro virtudes”: a coragem, pela eliminação da paralisia conseqüente ao medo, a sabedoria, pelo estímulo ao estudo das leis universais e ao auto-estudo, o amor, pelo estímulo à não agressão e ao respeito à vida, e a empatia, através da pergunta: “como nossas ações afetam ao mundo em geral e aos outros em particular?” 86:23. O despertar dessas virtudes influencia o nosso modo de estar no mundo, enfrentando os desafios que se nos apresentam.

O Aikido é o estudo dos Princípios da Natureza. Foi criado com o objetivo de estimular a vida e buscar, dentro do homem, a união com o Poder Infinito. O Aikido é essa busca e é a coisa buscada, por isso ele não pode ser ensinado, mas descoberto no interior de cada um. Para isso, há três estágios bem definidos, que foram descritos por O-sensei (o grande mestre): colocar a mente em ordem e harmonia com a Ordem Universal, colocar o corpo também em harmonia com a Ordem Universal e por fim unir corpo e mente, através da energia vital (Ki), e pô-los em harmonia com a mesma Ordem Universal 86:25.

Colocar a mente em ordem é desenvolver a mente imperturbável (fudoshin), relaxada, em paz, estável, mas alerta. Colocar o corpo em ordem é mantê-lo saudável e livre de tensões (relaxado), embora alerta. Para ver a realidade de qualquer situação, mente e corpo devem estar em ordem. Isso é o significado de “Ai”: a harmonia que é como uma fusão com o ambiente em volta, “transformando as dificuldades em felicidade e a discórdia em paz” 39:31.

No trabalho mental, deve-se compreender a origem de nossos medos e agressividades de forma que possamos ficar livres deles. Sem autocrítica, manifestamos arrogância e perdemos a verdadeira batalha, por não reconhecer o verdadeiro adversário que é o nosso próprio ego. Sem isso não podemos compreender o sentido do Aikido e muito menos dominar a técnica. Então se trabalha a mente para conseguir ver as coisas como elas são, adquirir a noção de “ma-ai”, a distância perfeita entre nós e o oponente, e desenvolver a capacidade de adaptabilidade. Dirigir nosso empenho para nosso íntimo e não para opormo-nos ao outro.

O fracasso da humanidade está na crença de que pode mudar o mundo com o trabalho exterior e assim o homem tenta mudar o exterior para que ele se molde ao que achamos que é correto. Mas na verdade, o homem só é capaz de mudar a si mesmo e assim adquirir a capacidade de viver em harmonia com o mundo. Num mundo de solo espinhento, é mais fácil atapetar o mundo ou calçar algo atapetado? Aikido é entender que todo espinho existe para proteger alguma flor e quem ataca o faz por equívoco, está iludido. É uma alma sofrida que se julga separada de tudo e de todos e que pensa que está isenta das conseqüências de seus atos.

O Aikido demanda esforço mental e físico na eliminação de hábitos mentais e físicos que estejam em desacordo com a Ordem Natural (o Do japonês ou o Tao chinês). Dessa forma é um auto-estudo enquanto indivíduo e enquanto membros de uma sociedade que se relacionam. Aprende-se a interdependência, a adaptabilidade a situações adversas e a criatividade para lidar com elas. Assim, a técnica correta requer uma comunicação íntima com o outro, unir-se com a mente e com o corpo do outro, percebê-lo. Se não podemos mudar a intenção do adversário temos de nos adaptar ao ambiente hostil sem feri-lo e sem nos machucarmos, buscando desfazer a ilusão em que está a mente dele.

Para isso deve-se abandonar a idéia de defesa, não deve haver nenhum pensamento defensivo. A mente de defesa é a mesma mente disposta a revidar ou atacar. Deve-se aceitar o ataque e harmonizar-se com ele de tal modo que você não possa ser atingido. Uma atitude impenetrável. A busca do Aikido é a busca pela harmonia com o outro, fundir-se ao outro no movimento, compreendê-lo (sentir o seu movimento) e redirecionar o conflito a uma solução. Ataque e defesa somem nesse processo. Isso é conhecido como makoto: ser leal consigo mesmo e com os outros, buscar incessantemente a perfeição com a mente aberta de um principiante, e dedicar-se a aliviar o sofrimento do outro 39:38. Estar makoto é estar em harmonia com a Natureza.

Com o treino desenvolve-se um estado de não-resistência, pois, gradativamente se perdem as tensões, o medo e a agressividade, e começa uma transformação do ego, do “eu inferior”. É o princípio conhecido como muteiko. Quando passamos a não interferir no fluxo natural das coisas, não tentando impedir ou lutar contra uma sucessão de eventos que se nos apresenta, entramos em harmonia com eles e alcançamos a vitória.

“O Aikido é o princípio da não-resistência. Aquele que é não-resistente é vitorioso desde o início... Um verdadeiro guerreiro é invencível porque ele não se opõe a nada”  86:30.

Morihei Ueshiba

 

Quando se começa a renunciar ao ego (os pensamentos de autoproteção e autopreservação), aquela parte nossa que antes se julgava como algo separado do todo, uma força sutil passa a fluir através do praticante: ele se torna sunao. Ser sunao é não saber nem não saber, não é confiança nem insegurança. É o estado de não-agir, não-fazer que o taoísmo denomina wu-wei. É quando a verdadeira técnica surge, pois não é o ego que a executa, mas começa a aflorar um poder natural, o verdadeiro Aikido:

“O progresso no Aikido avança na proporção da descoberta de um poder natural, uma essência orgânica, dinâmica, dentro de si mesmo... É um caminho onde a pessoa encontra progressivamente o verdadeiro eu, com surpresa e alegria; o eu exilado, escondido, com seu inesgotável potencial, permanece despercebido por muitas pessoas que morrem sem sequer saber que ele existe”  39:39.

Morihei Ueshiba

Essa mudança ocorre naturalmente quando se abandonam os mecanismos de defesa, a ânsia pelo controle e a mentalidade de disputa (idéias de sucesso ou de fracasso). É algo que nasce no treinamento diário e se derrama pela vida cotidiana. Naturalmente some-se o desejo de manipular os outros, ou qualquer situação que surja em nossa vida. Nasce uma consciência sensível, livre de orgulho ou arrogância. Desperta a visão intuitiva e a capacidade de se manter calmo, relaxado, mas atento, em qualquer situação de perigo. Esse estado é conhecido como keiko: pensar à moda antiga.

Mas esse estado de não-ação e não-violência não significa ceder ao ataque, mas se tornar uno com ele. Muitas vezes isso é obtido por kaiten – deixar passar, que sempre leva a masakatsu: a verdadeira vitória. Masakatsu não reconhece a hostilidade nem o ódio, mas a união e a harmonia entre o atacante e quem é atacado: se defender com compaixão sem querer convencer ativamente o outro de seu erro. Treina-se para se pressentir o ataque e redirigi-lo por uma atitude centrada e equilibrada.

Além disso, o Aikido não deixa de ser um excelente promotor da saúde. É amplamente conhecida a relação entre o tônus muscular e a psique. As posturas formais assumidas no treino, chamadas de kamae, moldam um espírito altivo e receptivo, forte e flexível. Através de alongamentos corporais e da respiração abdominal, trabalham-se as dimensões física e psíquica do ser, pois se desbloqueiam os canais sutis e a energia vital circula livremente. Esse desbloqueio é conhecido como misogi: “uma lavagem de toda a sujeira, uma remoção de todos obstáculos, a separação da desordem, uma abstenção de pensamentos negativos, um estado radiante de simples pureza”Morihei Ueshiba.

Treina-se para se entrar em contato com essa energia sutil, desobstruída e purificada, que brota no Hara. O Hara (centro de massa ou tanden on ichi – “ponto único”) quanto o centro espiritual do homem, que distribui a energia vital para todas as partes (Cf.  em “A INTENÇÃO E A DIMENSÃO HÁRICA”). É o local onde a mente do praticante deve estar focalizada e de onde devem brotar todos os movimentos. Sem a mentalidade e intenções corretas, não se avança no caminho espiritual e, conseqüentemente, não se experimenta qualquer avanço real no mundo psicofísico. tanto é o centro físico

Assim se coloca o poder da vontade no Hara e aprende-se a manifestar a energia espiritual para nos unir com as dificuldades e não nos opormos a elas. Toda a existência da pessoa passa a ser uma manifestação da energia espiritual que brota do Hara. Geralmente é no terceiro ou quarto dan (grau de faixa-preta) que se começa a manifestar mais a energia do Ki que a dos músculos.

Com o aperfeiçoamento, o Hara e a técnica são unificados, a concentração permanece imutável no ponto único e não se preocupa mais com a habilidade do oponente. Um tal mestre movimenta-se livremente a partir do Hara e a técnica surge espontaneamente, de acordo com a necessidade. Corresponde a, no mínimo, sétimo dan. No último estágio de autodesenvolvimento, quando se realiza mentalmente e espiritualmente (sentimento e compreensão intuitiva integrados em todos os aspectos da vida), o praticante “termina o Hara”: Hara ga dekite iru 39:44.

Ser flexível exteriormente e forte interiormente é o objetivo do aikidoca. Saúde, docilidade, atenção e uma personalidade profundamente ponderada são as qualidades que exemplificam a constituição de um verdadeiro mestre em Aikido 39:172..

Categoria: Órion Volume 2

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